O ocaso de um blog – efeitos deletérios

São muitas as razões que impulsionam um escritor diletante a ignorar seus clamores de expressividade e mergulhar num oblívio criativo. A falta de uma constância na escrita acaba descambando para a perniciosa preguiça e, a partir daí, a procrastinação é a lei. Excesso de atividades, estresse, problemas pessoais, falta de tempo, tudo é aventado como escusa para postergar um exercício cada vez mais fundamental nos dias de hoje que é escrever.

Considero a leitura e a escrita como rotinas complementares. Uma conduta é passiva e a outra, ativa. Não se pode privilegiar uma em detrimento da outra sob pena de perda progressiva de nosso potencial de expressão. Usualmente não fico sem ler, mas às vezes o meu tempo para escrever cede espaço para uma miríade de outras atividades e acabo pagando um preço por isso. Meu vocabulário fica mais limitado e parece que demoro um minutinho a mais para formular linguisticamente raciocínios que exijam maior empenho mental. Em resumo, fico mais burro quando deixo de exercitar a escrita por muito tempo. É esse o estado atual das coisas.

As experiências de ver um filme, ler um livro, assistir à uma peça de teatro ou programas de tv são significativamente exacerbadas quando sucedidas por um esforço de resenha escrita. Exigimos de nosso cérebro que faça o trabalho de perscrutar o que de melhor – ou pior – compôs cada manifestação cultural e, após isso, formule frases críticas sobre tais ponderações. É por isso que gosto mais de escrever sobre cultura em geral. Assim, deixo de apenas acompanhar passivamente tais eventos. Busco maximizar a experiência que me foi oferecida e me deleito com isso.

A escrita é saudável porque exige que o texto seja revisitado, moldado, atualizado, até estar agradável a seu criador. Tem que expressar algo inteligível sem cair na verborragia. Pode ter belas pavaras, mas não a ponto de ser críptico ou prolixo.É um exercício muito prazeroso e que enobrece o espírito.

Mas este é um blog secreto. Diria até que pseudossecreto. Não o divulgo porque ele é utilizado somente para dar vazão a essa minha íntima necessidade de ter um espaço para escrever sobre o que quisesse. Libérrimo,  aqui não tenho  pressão alguma sobre tema ou prazos. Se alguém o estiver lendo neste momento, saiba que és tu um cúmplice intruso dessa minha jornada silenciosa. Um clandestino no meu navio solitário que singra um mar de palavras. Que seja uma viagem inesquecível!

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Pai dos Burros???

Sempre me causou incômodo a expressão “pai dos burros” para designar o dicionário. Ela é absolutamente ilógica e despropositada. Como não encontrei em minhas pesquisas uma origem factível para esta desonrosa alcunha, só posso interpretar o termo “burro”, de quem o léxico seria seu genitor, na popular derivação conotativa que o liga ao sujeito ignorante e insipiente  relegado à indulgência intelectual por cometer o crime de consultar seu “pai”. Ignomínia das ignomínias!

Acaso uma pessoa que, no exercício da leitura, detém-se diante de um verbete desconhecido e ainda tem a dignidade de interromper momentaneamente essa nobre atividade para buscar um livro que faça introduzir a palavra em seu vocabulário merece ser pejorativamente tachada de “burra”? Esse mesmo sujeito que abdica por alguns segundos de seu conforto para se mover até a estante onde repousa placidamente o dicionário deve ser achincalhada com uma expressão chula e desrespeitosa?

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Ora, não há como compreender de que maneira essa infeliz designação ainda consegue subsistir aos rigores da correição moral e comportamental que há muito contaminou o vocabulário. O “politicamente correto” – bem ou mal – não conseguiu defenestrá-la do seio vernacular, o que nos conduz aos questionamentos acima. Afinal, o leitor deveria se sentir constrangido de folhear um livro que certamente o tornará mais culto, provendo-lhe a acurácia dos verbetes? Haveria burrice em quem se despoja do torpor das poltronas para desbravar novas fronteiras linguísticas?

Mark Twain disse que “a diferença entre a palavra quase exata e a palavra exata é a mesma diferença que existe entre o vaga-lume e o raio”. Ora, a ferramenta mais eficaz para se alcançar a exatidão dos vocábulos e, consequentemente, melhor aproveitar o potencial da língua é o dicionário. É impossível construir a definição das palavras com base apenas na interpretação do contexto ou na observação empírica. Deve-se incentivar seu manuseio desde tenra idade e não estigmatizá-lo. Pai dos Sábios, isso sim…

Eterno sibarita

No momento em que os olhos do mundo se voltam ávidos para contemplar o neófito Bebê Real num circo armado para garantir sobrevida à dinastia inglesa, uma outra figura da realeza britânica se esgueira languidamente pelos cantos dos tabloides, exibindo sua cabeleira já alva e as rugas que sinalizam um intrigante crepúsculo. Sempre que é observado, um feixe de questões inquietantes teima em pairar sobre a mente de muitos plebeus.

O que faz da vida um príncipe sexagenário? Como ele ocupa seu tempo real? Com que  coisas lida enquanto espera ingloriamente por um golpe de sorte que destrone a mãe de genes longevos do lugar que ocupa desde 1952? Será que a vida de Sua Alteza Real, o Príncipe de Gales, é atormentada por tais ponderações? Ou ele teria superado os traumas pessoais e dramas conjugais para, finalmente, desfrutar as delícias principescas de ser quem é?

 PRINCE CHARLES

Charles já tem 64 anos. Casou-se duas vezes. Seus dois filhos são frutos do – fracassado – matrimônio com a fulgurante Diana, morta em 1997. Preso a uma união de fachada, o príncipe foi à lona no duelo conjugal pela conquista da opinião pública e saiu das cordas chamuscado pela fama de marido insensível e infiel. Após granjear dos súditos a indulgência que se costuma deferir aos viúvos, sentiu-se confortável para escancarar oficialmente seu amor pela velha companheira de guerra, a intragável Camilla, sensaborona e despida de qualquer carisma.

Somem-se às trapalhadas de alcova a percepção de que Charles nunca trabalhou – no sentido convencional do termo. Afora raras visitas a instituições ou coquetéis de ONGs, o príncipe ocasionalmente ainda insiste em se lançar rumo a inócuas viagens ao estrangeiro, arrastando consigo uma força diplomática nula. Charles também jamais foi visto, – ao contrário de seus filhos – em algum campo de batalha, circunstância que o despoja de qualquer consagração heróica. Não há paliativos que atenuem a impressão de que o príncipe inglês parece embevecido pelos tépidos ares da boa vida. Tímido e sem empolgação, Charles é um desastre quando tenta empolgar os súditos e galvanizar as plateias. Num documentário de 1993, feito sob encomenda para se promover, o tiro saiu pela culatra e o príncipe conseguiu difundir ainda mais a imagem débil, imatura e esquemática que acalenta.

A demorada imersão na ociosidade forjada pelos protocolos não é exclusividade de Charles, nem das latitudes mais altas do globo. No Império tropical do Brasil, a carola Isabel parecia perdida nos meandros oficiais do poder e por mais de quatro décadas exibiu sua persona frágil, embalada pelas tarefas domésticas e por viagens à Europa com seu marido, sempre à sombra do pai, Dom Pedro II. Mas os curtos períodos de Regência de certa forma a redimiram. Num deles, aboliu a escravatura e entrou para a História. Charles, diferentemente, nunca teve um poder de fato nas mãos e, como a Monarquia no Reino Unido é meramente figurativa, será um rei diáfano.

A Charles resta apenas a aborrecida espera. Tudo indica que sua cabeça só será coroada no alto de seus quase 80 anos. Será o príncipe que mais tempo esperou. Ele, que já foi eclipsado a vida toda pela mãe e depois pela ex-esposa, pelo filho e agora pelo neto, agora torce para que esteja vivo a fim de concretizar o que almejou a vida toda. God save the prince!

Duas batalhas de Francisco

Quando assomou ao balcão principal da Basílica de São Pedro em março deste ano, Jorge Mario Bergoglio já conseguia distinguir as nuvens negras no horizonte de seu pontificado. Na ribalta-maior de uma instituição milenar e recém-coroado sob o inédito nome pontifício “Francisco”, o jesuíta argentino de sorriso bonachão encarnava, naquela tépida noite outonal, a sumidade dotada de oito títulos oficiais e um rebanho de 1 bilhão de fiéis mundo afora. Superado o choque inicial da renúncia de seu antecessor, o catedrático e tímido Joseph Ratzinger, era a hora decisiva para o novo Bispo de Roma.

Não bastassem os problemas de praxe envolvendo a sangria desatada dos católicos, processo que se avolumou nos últimos 30 anos graças ao arrebatador proselitismo evangélico, o Servo dos Servos de Deus também avistou outro panorama árido em sua frente. Tamanha era a podridão que carcomia o seio burocrático do Vaticano – a famigerada Cúria Romana – que o novo Papa se viu obrigado a conferir musculatura à sua faceta gerencial-administrativa sem atrofiar sua função ecumênica. A tempestade exigia que o líder católico corporificasse a simbiose perfeita entre gestão e fé, sob pena de um futuro nada resplandecente ao catolicismo.

Pope Francis

É esse Papa-gestor que desembarca no Rio de Janeiro na próxima semana a caminho da Jornada Mundial da Juventude. Se a visita de um Papa naturalmente já é um acontecimento de feições épicas, esse encontro é ainda mais aguardado pelas circunstâncias nada convencionais que o rodeiam. Além de ser sua primeira viagem internacional, a Jornada servirá como campo para a batalha dupla que Francisco deverá travar: uma tradicional, contra a força evangélica que acarreta a debandada de seu séquito de fiéis e outra, mais recente, a terrível escaramuça contra as forças profanas que vêm abatendo o mundo católico. O sucessor de Pedro estará, no Rio, desempenhando a hercúlea missão de salvar uma Igreja envolta nas cordas da pedofilia, do relativismo moral e dos escândalos financeiros e sexuais.

Não falta vitalidade a Francisco para travar essa guerra dúplice.  Embora tenha um idade já provecta (78 anos), seus movimentos são firmes. Se, antes de sucumbir ao martirizante e agônico espectro que o despojou do vigor físico, o carismático polonês João Paulo II conseguiu desempenhar papel fundamental na derrocada do comunismo, o papa portenho dá mostras de que também tem bala na agulha. É esperar pra ver.

A Derrocada de Eike

Desde que começou a surgir na mídia, a figura de Eike Batista despertava um misto de admiração e intriga. Afinal, o dinheiro parecia-lhe brotar muito mais fácil que o normal e, em pouco menos de uma década, Eike sempre galgava posições no ranking dos maiores bilionários do planeta, a caminho, dizia ele, do inexorável topo. O “Império X” parecia encarnar o vigor do desenvolvimento econômico nacional e era a aposta do governo – que o paparicava  com vultosos empréstimos e isenções fiscais – e  de boa parte da imprensa – que dispensava um destaque ostensivo à persona eikeana.

Mas como nem tudo que reluz é ouro, chegou o dia em que os resultados  de tanto investimento deveriam começar a aparecer. E o que se viu foi um desastre. Todo o rosário das empresas de Eike mais pareciam castelos de cartas, frágeis à mais insignificante ventoinha. As ações despencaram. A fortuna se esboroava a cada dia e o fundo do poço parecia inevitável. Do topo ao sopé da montanha bastaram 4 meses e o sonho de Eike parecia ter chegado ao fim.

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Ah, o tempo! Coisinha estranha. Somente ele poderia exercer o efeito gravitacional que o nefelibata Eike merecia, tirando-o das nuvens para transportá-lo de volta ao mundo real. Houve um tempo em que Eike, cortejado pelos figurões do sistema, era um sucesso imbatível. Agora há um tempo que o defenestrou do seu mundo de fantasias. O caso de Eike remete à citação de Abraham Lincoln, segundo a qual “pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo”.

A catártica arte de escrever

Por que escrevo? Por que insisto em manter um blog que ninguém lê e que não divulgo? Ajo por alguma pretensiosa dose de cabotinismo? Estaria eu imbuído da recôndita veleidade de impressionar alguém com meus escritos secretos? Acaso quero fugir da solidão? Sem dúvida, são questões pertinentes, mas que não aprofundam a problemática que propus a mim mesmo: por que diabos escrevo?

Libérrimo no vasto e intimidador espaço da página em branco do computador, teço pueris comentários sobre livros, filmes, música…e aqui faço um mea-culpa, acompanhado de uma autocrítica: não costumo me permitir revelar ou fazer resplandecer minha alma com o que normalmente escrevo. Quase nunca gravo em letras o que vislumbro como indivíduo que sente, que sofre, que ama, que odeia, que ri, que chora. E aqui revelo (talvez pela primeira oportunidade) uma frustração! Escrever sobre cultura ou política é tão mais fácil, tão menos expositivo. Estaria eu escamoteando minha personalidade em prol de interesses segundos, a bem da minha própria escrita? Teria pudor de me revelar e por isso levo adiante uma lavra sensaborona e cada vez mais insípida?

redação

Seria mendaz se afirmasse que não penso em tais questões. Por outro lado fico tranquilo porque é fato que me dedico a este ofício meramente por prazer. Sou um escritor diletante. Não tenho aspirações (no momento) de me profissionalizar nessa  arte ou de verter dinheiro com ela. Permito-me forjar textos que, embora possam ser considerados perfunctórios sobre assuntos gerais,  prezem por algum conteúdo e que complementem outra atividade que acalento muito – a leitura. Só escrevendo sobre o que se lê (e por consequência, sobre o que se vê, se sente e se percebe) é que as opinições e os conceitos se tornam mais sólidos em nós.

Mas como escrever também é catarse, sinto-me cada vez mais à vontade para enveredar novas sendas por meio da escrita. Não tenho pendores autobiográficos, mas por que não me valer de minhas elucubrações existenciais para interpretar o mundo que me cerca? Mário Sabino diz que, com a sua literatura, não quer descobrir quem é ou perscrutar a realidade de seu mundo circundante, mas vale-se de uma tentativa pessoal de descobrir quem não é e o que a realidade que o cerca não é. Talvez eu me assente em premissas semelhantes. Não quero escrever para prolongar uma psicanálise pessoal, nem para adquirir novos contornos intelectuais. Escrevo por prazer e por necessidade existencial. Apenas isso.

Destaques de Junho

Cinema – Guerra Mundial Z. Num mês de poucas estreias vigorosas na Europa, restaram os filmes americanos de verão. E nessa leva sobressai o thriller de Marc Foster, estrelado e produzido por Brad Pitt. Embora seja este um filme difícil de categorizar – terror, ação, suspense? -, traga à baila o batido tema dos zumbis e o final, comezinho, revele os flancos de uma provável sequência oportunista,  o bilhete é recompensado por uma interessante adaptação do livro de Max Brooks. Que julho seja melhor..

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Livro – A Morte do Pai, de Karl Ove Knausgard. Confesso que o fastio tomou conta de mim em algumas sequências de páginas deste livro, mas a forma intimista e o estilo moderno de tecer sua autobiografia me chamaram a atenção. Sem mencionar o pretensioso engenho de repetir a saga de Marcel Proust, o romance do autor norueguês é apenas o ponto de partida de mais 5 livros. Entre autocríticas e análises existenciais, enviesado por um pendor filosófico, o autor mergulha em sua infância e adolescência, numa narrativa não-linear. Saboroso e bem traduzido, a obra enaltece o vigor da literatura nórdica e merece ser lida.

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Disco – Long Way Down, álbum de estreia do jovem cantor britânico Tom Odell. O gênero folk pop é aqui representado por uma promessa talentosa  com belas melodias que, a despeito do estilo fossa, apresentam letras  poéticas e boa instrumentação.

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